quinta-feira, 26 de abril de 2007

Psicodinâmica Familiar e Escolha Profissional

Orientação Profissional

Psicodinâmica Familiar e Escolha Profissional

A família sempre teve um importante papel por sua função socializadora. Portanto, devemos considerar que a forma como os pais dão significado aos elementos da vida ocupacional sempre estará incluída no universo de representações do filho. Os pais, em geral, têm opiniões sobre o que seria mais ou menos desejável para seu filho e também uma certa visão sobre o que ele poderia fazer bem. Mesmo aquele que diz "o importante é ele ser feliz" possui uma visão mais precisa sobre o que seria melhor para o filho, ainda que subentendida nesse conceito de felicidade. É importante que tais fantasias se explicitem, já que estarão em jogo de qualquer modo.
Os pais preocupam-se com um futuro bem-sucedido e com um trabalho adequadamente remunerado para seu filho. São unânimes em afirmar que é preciso ter um bom salário e estar ativo no mercado de trabalho. Desemprego e salários muito baixos surgem sempre como grandes fantasmas.
Muitos pais ainda operam com as representações tradicionais sobre o que seria uma carreira prestigiada e demonstram aberta ou camufladamente suas rejeições por carreiras que, supostamente, remuneram mal. E, usualmente, ainda consideram as profissões clássicas como as mais promissoras: Engenharia, Medicina e Direito, dentre outras. Alguns pais não percebem, então, que, no mundo atual, é possível tomar um suco na “Casa de Sucos” de um engenheiro ou receber cachorro-quente ou pipoca das mãos de um advogado, por exemplo. Apesar de, na maioria das vezes, trabalharem com critérios como: "ganhar muito dinheiro" e "profissão de prestígio", esquecem-se de adequar estas representações ao mercado atual. Não se dão conta, portanto, de que o mundo ocupacional não pode ser rigidamente dividido entre as profissões que “dão dinheiro” e as que “não dão dinheiro”. Atualmente, boas e más colocações distribuem-se pelas diversas áreas de trabalho.
Observa-se, com isso, que a Orientação Profissional, ao focalizar a vida ocupacional de um indivíduo, estará se inserindo no universo de representações do cliente e de seu grupo familiar sobre o mundo do trabalho e, dentro disso, também em sua visão mais geral de mundo em seu modo de dar sentido à vida.
A escolha profissional pode, ainda, estar enlaçada em conflitos e no modo de operar do grupo familiar como um todo. O jovem mantém-se, por isso, aprisionado a um tipo de escolha, onde ele mais está tentando solucionar conflitos afetivos vividos com os membros da família do que se identificando com o cotidiano do profissional que está escolhendo ser. Assim, não é possível recortar uma visão sobre o cliente de forma descontextualizada e faz-se necessário compreender suas ansiedades em referência ao grupo social (família, amigos, escola, etc.).
Muitas vezes a participação da família em entrevistas de Orientação Profissional pode ser de enorme auxílio no enfoque de determinados aspectos conflitivos, vinculados à escolha ocupacional do jovem. O momento da escolha profissional é muito importante. Embora sempre se possa alterar o rumo tomado, aquilo que o indivíduo escolher se refletirá na totalidade de sua vida. O programa de Orientação Profissional é um espaço importante de reflexão, pela amplitude e extensão que um direcionamento para uma carreira pode ter. Esse trabalho envolve um conjunto de representações mentais com o qual o estudante concebe o seu eu e o mundo ao seu redor – ou seja, com sua própria visão de mundo – ajudando-o a ressignificar sua realidade e a planejar uma estratégia para o futuro.
Atrás de uma escolha profissional encontra-se toda uma dinâmica que envolve a relação que o indivíduo estabelece com seu passado-presente-futuro, em seus aspectos aparentes e latentes. Nesta perspectiva, o que se escolhe e o que se considera ou não ao escolher constitui o eixo da temática a ser focada na Orientação Profissional.
A Orientação Profissional deve voltar-se a este referencial: às fantasias e desejos do sujeito, à sua operacionalidade e às suas implicações na continuidade de sua vida, considerando os desejos dos pais e buscando dar voz ao desejo do jovem em questão.
A escolha profissional é um momento da vida da pessoa em que ela poderá refletir sobre tais expectativas e construir seus próprios valores que podem ou não ser coincidentes com os da família. Os pais devem explicitar suas expectativas (e não escondê-las a título de não influenciar), preferencialmente de forma não autoritária, para que o jovem tenha mais parâmetros para tomar esta importante decisão. A escolha poderá ou não respeitar as expectativas, mas o importante é que foi dado ao jovem mais elementos para pensar na sua decisão.
Às vezes os pais têm dificuldade em perceber que seus filhos crescem rumo a autonomia. O momento de escolha de uma profissão por parte de um membro mexe com toda a família. Os pais revivem e se questionam quanto à escolha que fizeram, os filhos mais jovens antecipam preocupações.
Não é agradável abandonar um curso no meio. Ninguém escolhe uma profissão para depois abandoná-la. Abandonar um curso é uma nova escolha e tão difícil quando a escolha que a antecedeu. A função dos pais, como foi dito anteriormente, é explicitar suas visões para que a própria pessoa tenha mais condições de tomar uma decisão ponderada, coerente e refletida.
Em alguns momentos, a escolha profissional, influenciada pelos dilemas familiares, poderá, mesmo, transformar-se em sintoma de grupo - expressão de ansiedades e conflitos compartilhados. Por isso, a inclusão dos pais (e/ou outros membros da família) em entrevistas com o estudante ou de atividades que promovam o pensar sobre este universo, podem auxiliar o enfoque destes processos, na Orientação Profissional de um jovem.
Sem deixar de considerar o desejo dos pais é necessário estimular a comunicação – das expectativas, dos desejos e medos – que embora seja extremamente relevante, nem sempre é possível ou fácil.
Portanto, a terapia pode então servir como um facilitador dessas expectativas não ditas e com isso contribuir para um melhor posicionamento frente à escolha profissional a ser feita.


BOCK, Ana Mercês. A Psicologia Sócio-Histórica: uma perspectiva crítica em psicologia. In: BOCK, Ana Mercês, GONÇALVES, Maria da Graça, FURTADO, Odair (orgs.). Psicologia sócio-histórica. SP: Editora Cortez, 2001.
BRIDGES, William – O Impacto Psicológico do Desaparecimento dos Empregos. In: Um Mundo sem Empregos; tradução José Carlos Barbosa dos Santos, Makron Books, São Paulo, 1995.
CHANLAT, Jean-Francois – Modos de gestão, saúde e segurança no trabalho . In: DAVEL, Eduardo, VASCONCELOS, João. Recursos Humanos e Subjetividade. Petrópolis. Editora Vozes, 1997.
DEJOURS, Christophe – A banalização da injustiça social , Editora FGV, Rio de Janeiro, 1999.
DEJOURS, Christophe - A loucura do trabalho: estudo de psicopatolgogia do trabalho; tradução Ana Isabel Paraguay e Lúcia Leal Ferreira. - 5ª ed. Ampliada - São Paulo: Cortez - Oboré, 1992.
MIZRAHI, Beatriz Gang - A relação pais e filhos hoje - a parentalidade e as transformações no mundo do trabalho , RJ, Ed. PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2004.
ROUDINESCO, Elisabeth - A família em desordem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003 .
SENNETT, Richard – A corrosão do caráter: as conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo; tradução Marcos Santarrita – 7ª ed. – Rio de Janeiro: Record, 2003.
Tatiana Vasconcelos Cordeiro
Psicóloga Clínica CRP 05/33923Tijuca - Praça Saens Peña - RJ
E-mail:tatiana_consultorio@yahoo.com.br
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2 comentários:

Daniela Cracel disse...

Bem interessante seu blog!!
Temos que dar mais lugar a psicologia, para as pessoas entenderem melhor esse grande universo!
Vc tem um mail?
Dá uma olhadinha depois no meu blog!

Tatiana Vasconcelos Cordeiro disse...

Olá, Daniela

obrigada pelo retorno. Vou dar uma olhadinha em seu bolg com certeza e assim nos falamos.

O meu e-mail é tatiana_consultorio@yahoo.com.br

Um abraço pra você,

Tatiana Cordeiro.